Lei sem ouvir o povo dá nisso

Eu demorei a fechar a pesquisa que fiz para complementar a ESTA postagem do dia 10 de outubro e responder a seguinte hipótese:

A Lei que determina Vagão Exclusivo para mulheres nos trens urbanos no Rio de Janeiro não corresponde a real necessidade.

E não responde mesmo. Poderão os contrários dizer que a pesquisa é muito limitada, no que eu estou pronto para concordar. Ela não pode ser conclusiva exatamente pelas limitações, mas se torna indicativa para uma pesquisa maior, com mais amplitude e recursos, e ainda assim penso que a conclusão será muito próxima das conclusões aqui apresentadas.

Foram 143 minutos de pesquisa sendo 91 minutos dedicados na estação Austin e 52 na estação Engenheiro Pedreira (Gráfico 1).

Em ambas as estações o número de mulheres que embarcaram nos trens no intervalo de hora entre 7 e 9 horas é maior que o número de homens, embora em um dos dias o número de homens, na estação de Austin, tenha sido maior que o de mulheres. Em Austin 426 mulheres contra apenas 418 homens. Em Engenheiro Pedreira 182 mulheres contra 174 homens (Gráfico 2).

Mas minha pesquisa não se limitou a contar homens e mulheres nas estações. Tive a curiosidade de querer saber o que pensam os passageiros Supervia neste intervalo de horário sobre os vagões exclusivos para as mulheres.

Sem me importar em identificar as pessoas entrevistadas, e apenas aquelas que embarcaram nos vagões exclusivos para mulheres (as entrevistas foram feitas entre as estações Engenheiro Pedreira -Austin e Austin-Nova Iguaçu). Na primeira entrevista um homem. Quis saber dele se ele tinha consciência de que estava num vagão feminino. Disse não ter percebido e acrescentou:

 – Não fico escolhendo vagão para entrar. Entro naquele que parou perto de onde estou.

Uma mulher entrevistada disse:

– Isso é besteira. O que tem que fazer é colocar mais trens pra gente não ter que viajar apertada nos trens. Espera chegar Nova Iguaçu pra você ver como isto aqui vai ficar!…

Outros homens entrevistados também disseram não notar que estavam embarcando num vagão exclusivo para mulheres. A explicação se deve ao fato de que na estação não se tem uma marcação dizendo onde o vagão exclusivo vai parar e que naquele espaço só se permitiria o embarque de mulheres. Não se da implicação disso na prática, mas se os trens tem como parar num ponto específico, nas plataformas poderiam pintar de rosa o espaço onde teoricamente os vagões exclusivos devem parar e, desse modo, os homens evitariam parar naquele espaço.

Isso não significa que as mulheres vão buscar aquele vagão exclusivo, como se pode observar na resposta de outra mulher entrevistada ao dizer que “seria chato entrar num vagão e não ter um rosto masculino para observar”. Talvez isso possa explicar a razão de ter 1/3 dos vagões exclusivos para mulheres quando a maioria de passageiros no intervalo de horário é feminina. Um professor de uma escola pública em Japeri respondeu que a Lei é apartheid de gênero e como isso não faz parte da nossa cultura a Lei não pega na prática apesar dos constantes anúncios no serviço de alto-falante da companhia.

Sobre a Lei em si, a impressão percebida foi a de que ela foi criada para não ser cumprida porque não corresponde a necessidade da população. Os usuários Supervia desejam mais trens e que estes trafegassem nos horários. As mulheres querem respeito, mas isso não implica um vagão exclusivo, mas uma mudança de comportamento dos homens que viajam com elas.

Para efeito de conclusão, se querem que a Lei seja cumprida, faz-se necessário pintar nas plataformas o local onde os vagões deverão parar, como já dissemos em parágrafo acima. Seria interessante para saber quantas mulheres se prontificariam a permanecer no local e como os homens se comportariam diante da medida. O fato, contudo, nos remete à uma questão política: por que os parlamentares não consultam o povo sobre suas ideias antes de torna-las Leis?

 

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