A parteira ajudadeira


Tchutchuca: quando recolhida por minha filha de 8 anos, tinha mais sarna que cadela. Foi tratada por uma menina alfabetizando.

 

Eu nasci na velha casa onde morava.

Minha mãe contou-me haver naquele lugar um rico fazendeiro cético quanto às tradições populares.

Ela, ao parir-me, não se fez de rogada e aceitou a ajuda da parteira, uma senhora muito pobre e ajudadora das famílias sem posse. Como pode haver alguém sem posses ajudar outros igualmente pobres?

Ela estava lá quando minha mãe precisou.

Minha falecida mãe afirmou, às lágrimas, ter eu nascido com menos de trinta centímetros de comprimento, capaz de caber, por inteiro, numa pequena caixa de sapatos.

O fazendeiro reagia negativamente quando lhe indicavam a cultura popular. Na medicina então, nem pensar.

Como era no interior das Minas Gerais, quando necessário, solicitava, e pagava, para um médico se deslocar da capital Belo Horizonte até à cidade. Aconteceu, porém, sua mulher, estando grávida por parir, começou a sentir as contrações num domingo dia 3 de maio.

Percebe-se, portanto, ter sido a sexta-feira, dia 1 de maio, feriado nacional. Percebendo o sofrimento da mulher, desesperou-se e pediu ao filho para ir à prefeitura local e solicitar a presença do médico.

Sua mãe, uma velha senhora, socorrendo a nora em seu leito, percebeu haver algo errado e recomendou ao filho solicitar o socorro da parteira – a mesma santa senhora ajudadora das famílias pobres a quem devo gratidão por ter ajudado minha mãe.

O rico fazendeiro esbravejou-se.

– Como assim pedir ajuda àquela infeliz, suja, tal como porcos?

– Filho, disse-lhe sua mãe, é bom ter a ajuda de alguém com experiência nessa hora.

– Deus me livre! Aquela feiticeira não vai tocar no meu filho. Vamos esperar pelo médico!

E assim esperaram até o filho retornar da prefeitura com uma negativa.

Antes de chegar ao prédio da administração municipal o menino foi obrigado a ir à casa do prefeito, de lá foram juntos à prefeitura e ligaram para a capital. Qual foi a surpresa? O médico não estava em casa. Tinha viajado com a família para o Rio de Janeiro.

O menino volta para casa atordoado sentido a fúria do pai com a ausência do médico. Ao tomar ciência da ausência do médico o fazendeiro entra em desespero:

– E agora, Deus do Céu?!

– Vamos fazer nós mesmos então, disse-lhe a mãe saindo em socorro da nora.

Ao cuidar de ver como seria feito o parto, a senhora mãe do fazendeiro percebeu o menino virado no ventre da mãe, impedido, portanto, de sair naturalmente. Ela chama o filho e lhe mostra a situação.

– Filho. A situação é esta e não podemos resolver nós mesmos. Vamos chamar a parteira!…

Desta vez o fazendeiro nada disse, enquanto sua mãe determinava que o neto, já menino, fosse em socorro da velha ajudadeira.

Quando a parteira chegou à fazenda, ferveu água, preparou tesoura e panos limpos. Lavou as mãos enxaguando-as com álcool, preparando-se para uma operação milagrosa: o milagre da vida.

Esta velha senhora ajudava em muitos partos, incluindo os mais complicados. Nunca passou pela escola. Era completamente analfabeta, quiçá tinha um diploma autorizando-a a fazer partos.

A velha senhora cuidadosamente introduz a mão na vagina da mãe sofredora, com movimentos suaves, entre gritos de dor e olhar incrédulo do fazendeiro, vira o rebento dando-lhe a conhecer este mundo impregnado de preconceitos e corporativismos, onde um diploma serve de passaporte para a empregabilidade.

A história é verossímil.

Este texto foi escrito em 15 minutos com a autodeterminação de não utilizar a palavra “que”, um exercício prático para responder ao post original publicado no Observatório da Imprensa em abril de 2010.

 

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